A falsa dicotomia entre moda e consumismo

quinta-feira, outubro 15, 2015


Se tem algo que me incomoda, desde que decidi cursar moda, é a falsa dicotomia entre moda e futilidade ou também moda e consumismo. Esse pensamento intrínseco em milhares de pessoas aqui no Brasil, já chegou ao extremo da desinformação. Uma vez, estava conversando com amigos em comum de outros amigos, e quando fui perguntada sobre o que eu estudava, eu escutei “Ah, mas isso é muito de boa. Nem sabia que era preciso estudar pra isso!” após responder que eu estudava moda. Nesse dia eu comecei a montar um arsenal de argumentos para combater a ignorância das pessoas que expressam isso.

Lembro-me que entrei no curso de moda porque sempre amei costura e, embora não tenha aprendido a costurar plenamente, aprendi que moda e a criação de roupas não têm e nem nunca terão como primazia o consumismo. Quando comecei a me deparar com a mentalidade do mundo ao tratar os profissionais da moda, mesmo sendo essenciais para que haja diversidade nessa área, me obriguei a fundamentar conceitos para defender o lado belo e real da moda: aquele que valoriza as pessoas e sua arte.

Percebi que todas as pessoas que acreditam que moda é algo fútil, obviamente também a consomem (afinal, ninguém anda deliberadamente nu sobre a terra) e denotam uma predisposição ao julgamento de várias profissões ligadas à criatividade. Nesse ponto, percebi também que informação é o remédio. Mas o consumismo permanece ali, dando suporte ao pensamento fútil totalmente condicionado à concepção de moda.

Sabemos o quanto uma parte da moda de hoje é podre. O quanto profissionais são explorados, animais são mortos e consumidores são pressionados para que ela exista. Mas como tudo nessa vida: não dá para generalizar. A moda acompanha a humanidade, basicamente presente em toda a sua evolução, junto à indumentária, tornando possível que aquilo que envolvia os corpos passasse a ser confortável e estético. Entretanto, chegamos a um nível em que aquele que cria e dá a vida para a criação é totalmente desconsiderado e inúmeras vezes desrespeitado. Toda a crueldade que se vê na moda de hoje, corresponde à ganância de quem usa a produção de massa para ganhar rios de dinheiro, explorando quem faz e intoxicando quem compra. Chega a um ponto da conversa em que fica doloroso falar de moda e das atuais condições de produção em massa.

Mas existe esperança, respeito e pessoas totalmente engajadas em corromper esse laço entre moda e consumismo. Lembro-me da época em que decidi viver a moda upcycling (essa que valoriza quem faz e as roupas descartadas mesmo não sendo lixo). Pensava em como consumir menos e aplicar a criatividade ao que eu vestia. Pensava em falar para todo mundo que a roupa que vestiam era algo bem sujo, contaminado e doloroso. Pensava tão radicalmente que me peguei no desespero com as minhas próprias roupas. Daí repensei, e decidi levar essa percepção de uma forma realista, pregando a verdade sobre a moda, por onde eu fosse, de uma forma cabível (tipo uma missionária de estilo, haha). Passei a me responsabilizar por minhas escolhas, em primeiro lugar.

Nesta fase em que blogs dirigidos por pessoas normais pregam o consumismo a troco de nada, eu já desanimei em escrever aqui. Mas cada vez que vejo uma costureira com 30 anos de experiência ganhando menos que um publicitário recém-formado, eu volto a militar e falar com voracidade sobre o que vale a pena na moda (a crítica não é ao publicitário em si, mas sim ao papel minoritário que ele exerce quando se trata de concepção de produto de moda). Cada vez que vejo pessoas aderindo ao armário cápsula, indo a brechós, comprando só o necessário, valorizando as criações de estilistas competentes e a qualidade das roupas na construção da autoestima, eu me lembro o que é moda e o que a torna tão especial.

Portanto, toda a depressão nutrida por não ter uma bolsa da Channel ou não ter looks diferentes para cada dia do ano é algo que precisa ser combatido. A pressão que o consumismo exerce sobre as pessoas, obrigando-as a vestir tendência e esquecer suas preferências é tão deprimente e abusivo, que nem conseguimos mais saber o que gostamos e precisamos. Esse excesso de informação de moda, que não é cultura de moda, é prejudicial até mesmo para a saúde, gerando ansiedade e depressão.

Moda é arte, valorização e responsabilidade. Embora seu conceito tenha mudado radicalmente ao longo dos séculos, estamos em tempo de repensar e colocar em prática formas mais responsáveis de viver moda e distanciá-la do consumismo. Um bom começo? Tratar suas roupas como parte de si e da pessoa que a criou, gerando um laço solidário e coletivo, tratando de moda com mais humanidade e respeito.

Você pode gostar também:

7 comentários

  1. Primeiro, sabe quando vc descobre algo e se apaixona de cara? Então que blog interessante! aconteceu isso comigo, adorei a forma como você escreve, e os assuntos que aborda! Segundo que criatividade na escolha dos assuntos e como você consegue deixar tão leve.
    Me inspirou a entender e querer descobri mais sobre o mundo da moda!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, que linda, Ketlin! Muito obrigada! Venha aqui sempre que prometo estudar mais e postar coisas novas. beijos *-*

      Excluir
  2. Achei fantástico o texto!
    Bom, primeiramente devo falar que as pessoas que ditam que moda é puro consumismo e futilidade é porque não conhecem realmente o que é moda.
    Os conceitos estão todos distorcidos, e esse momento que estamos vivenciando com os blogs tem induzido muito ao consumismo.
    Eu tenho tentado consumir menos, comprar menos e melhor. Tenho analisado melhor meu estilo pra comprar apenas as coisas certas. E, ao contrário do que muitos pensam, foi buscando entender um pouco mais de moda que tenho conseguido isso com mais facilidade.
    Adorei seu blog Marina, muito inspirador e construtivo, e seus looks são lindos *-*
    Beijo!

    http://brigadeirodeamora.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Eu tenho esse mesmo problema com as pessoas. Todo mundo acha que a moda é uma coisa fútil que só serve pra consumo, mas se você estuda a indumentária, é fácil ver que dá pra entender o comportamento de uma sociedade pelas roupas que já foram usadas.

    www.jiglaystuff.com.br

    ResponderExcluir

Você gostou? Então, comente!

Contato

Nome

E-mail *

Mensagem *